Léo Índio é hóspede argentino
Já houve um tempo em que a vida era bem mais simples. Era o tempo do "escreveu não leu, o pau comeu", ou seja, quando se fazia algo errado, imediatamente se pagava o preço e estava tudo resolvido - desde que não houvesse excessos, claro. Era um tempo em que a lei era soberana e seu aplicador não era alguém acima dela. Também era um tempo em que um vizinho não costumava se ocupar da vida do outro, ou seja, em que a maioria dos problemas era resolvida na própria casa dos implicados.
É, mas os tempos mudaram e hoje em dia ninguém mais tem convicção de nada. É o pai de família que deseduca o filho, o professor que não ensina, o jornalista que distorce a informação colocando a ideologia política acima da verdade, o magistrado que muitas vezes interpreta a lei ao seu bel prazer, o político que se acha chefe e não empregado do povo, o governo descumpridor de promessas que tira dinheiro do bolso de quem trabalha para entregar a quem não trabalha e assim por diante.
Voltando ao vizinho, personagem central deste despretensioso comentário, o governo argentino - que claramente não engole o governo brasileiro - emitiu documento concedendo "estadia provisória" (sabe-se lá por quanto tempo) a Léo Índio, aquele sobrinho do ex-presidente Jair Bolsonaro que se mudou provisoriamente para Cascavel no ano passado para ser candidato a vereador da cidade e foi embora imediatamente após contabilizar apenas 739 votos nas urnas.
Nada contra tratar bem um estrangeiro, mas acontece que esse caso se refere a alguém que está sendo processado sob suspeita de participação ativa nos atos antidemocráticos de dois anos e pouco atrás, em Brasília, e que declarou abertamente ter cruzado a fronteira em fuga, sob alegação de estar sendo perseguido pelo Supremo Tribunal Federal. Quem se alegrou com isso foi o poderoso Xandão, que momentos antes havia negado o pedido de prisão de Bolsonaro, mas ao receber a denúncia da Procuradoria Geral da República foi logo tirando a caneta do bolso e decretando a prisão do fugitivo.
Como se vê, o 8 de janeiro ainda vai continuar atormentando as nossas vidas por muito tempo. (Foto: Reprodução redes sociais)